É comum ouvir que "área de lazer completa valoriza o imóvel" como se fosse uma equação simples: quanto mais espaços, mais valor. Os dados reais contam uma história mais interessante — e mais útil para quem vai decidir onde investir. Área de convivência valoriza, sim, mas não do jeito que a maioria dos lançamentos assume.

Para quem está desenhando um masterplan agora, essa diferença tem um preço concreto: cada metro quadrado de área de lazer é orçamento que sai da obra e vira taxa condominial pelos próximos 30 ou 40 anos. Acertar o que construir — e principalmente onde posicionar cada espaço — é uma decisão que o comprador só vai sentir dois ou três anos depois de fechar a compra, quando descobre se aquele espaço vira rotina ou vira boleto.

O que a pesquisa mostra sobre a demanda

Um levantamento do QuintoAndar em parceria com o instituto Offerwise mostrou uma mudança real no que os brasileiros passaram a valorizar na casa onde vivem.

28,4%

dos entrevistados passaram a dar mais importância à área verde no entorno do imóvel — e 25% passaram a valorizar mais as áreas de lazer em casa. Mais de 11% chegaram a reformar o imóvel para atender a essa nova prioridade.

Fonte: QuintoAndar + Offerwise

Zener Costa, administrador de empresas e CEO da LLZ Garantidora, resume o efeito prático dessa mudança de comportamento:

"Condomínios que investem em melhorias tendem a alcançar maior valorização. O comprador não avalia apenas a unidade, mas o conjunto. Estruturas mais completas posicionam o empreendimento em um patamar superior de mercado." Zener Costa, CEO da LLZ Garantidora

Mas nem toda área de lazer valoriza igual

Aqui está a parte que os anúncios de lançamento não contam: existe uma diferença enorme entre um espaço que existe e um espaço que é usado. Uma análise do mercado imobiliário feita pelo Blog Luvi traz um dado que poucos corretores mencionam: imóveis em condomínios com piscina de uso esporádico podem ter taxa condominial até 40% mais alta que vizinhos sem ela — sem nenhuma diferença real no preço de revenda.

Ou seja: o item de lazer virou custo mensal, não valorização. O oposto acontece com espaços de uso frequente.

Costuma agregar valor realCostuma virar só custo
Academia equipada, de fácil acessoPiscina de uso sazonal (3-4 meses por ano)
Salão de festas com boa metragemQuadra poliesportiva descoberta, pouco usada
Espaço para crianças bem localizadoSauna com baixíssima adesão
Coworking interno (tendência crescente)Salão de jogos ou mini-cinema pouco usados

O padrão por trás do que funciona: uso, não quantidade

Reparando bem, o critério que separa as duas colunas não é o quanto custou construir cada espaço — é o quanto ele é efetivamente vivido no dia a dia. Um espaço isolado, de difícil acesso ou mal posicionado dentro do condomínio tende a cair para a segunda coluna, não importa quão bonito ficou no material de lançamento. Um espaço integrado às rotas que os moradores já percorrem tende a ficar na primeira.

É exatamente aqui que entra a centralidade

Este é o ponto onde os dados de mercado encontram o princípio central da Metodologia Espaço Único: um espaço de convivência bem posicionado — que cruza com o caminho natural de quem já circula pelo condomínio — é usado com muito mais frequência do que um espaço tecnicamente completo, mas isolado num canto do terreno. Centralidade não é sobre gastar mais em lazer. É sobre organizar o que já está no orçamento de um jeito que garante que as pessoas realmente vão usá-lo.

Na prática, isso muda a pergunta que um incorporador deveria fazer antes de aprovar um masterplan: não é "quantos itens de lazer temos", mas "quantos desses itens as pessoas vão realmente atravessar o condomínio para usar".

E se o projeto já está pronto ou em obra?

Nem sempre dá para redesenhar um masterplan do zero — e a boa notícia é que, na maioria dos casos, não é preciso. Reorganizar o uso de espaços já previstos, ajustar acessos e reforçar a conexão entre áreas que hoje funcionam isoladas costuma resolver boa parte do problema, sem demolir nada. É um trabalho diferente do masterplan completo, mas que parte do mesmo princípio.

Está desenhando o masterplan do seu próximo empreendimento?

Esse é o momento certo para decidir, com critério, o que vale a pena construir — e onde posicionar cada espaço para que ele gere valor real, não apenas custo condominial.

Quero aplicar o método no meu masterplan

Fernanda Fermino

Arquiteta formada em Planejamento Urbano e Territorial, com quase 20 anos de atuação em projetos de condomínios no Brasil e no exterior. Criadora da Metodologia Espaço Único.